
A maioria das cidades, não só as brasileiras, foi planejada e construída sob uma perspectiva rodoviarista, ou seja, que prioriza o automóvel.
Esta visão não só trouxe diversos impactos em nossa sociedade como moldou nossas cidades. Fez elas crescerem, distancias diminuírem, indústrias se desenvolverem, mas hoje vivemos o que podemos considerar como o ápice deste estilo de vida e, claro, suas consequências. As cidades já não aguentam mais a quantidade de automóveis, o trânsito é caótico, as calçadas apertadas, o ar é poluído, os acidentes são mortais, a violência no trânsito é constante, enfim. Talvez este não tenha sido o melhor jeito de pensar nossas cidades.
Amsterdã e Copenhague, por exemplo, são cidades que já nos anos 1970 perceberam que planejar uma cidade para o carro, e não para as pessoas, era um erro. Curitiba também tem destaque nessa questão quando em 1972 implantou o calçadão da Rua XV, o primeiro calçadão do Brasil. Mas apesar de se vangloriar com o que foi feito no passado, foi incapaz de avançar neste conceito nos anos seguintes. Pelo contrário, retroagimos.
Na tentativa de remediar esta situação e vender a imagem de cidade inteligente, para as pessoas, a prefeitura está realizando o fechamento de um trecho da Rua Conselheiro Laurindo, em frente ao Teatro Guaíra. A iniciativa tem lá seus méritos. De fato, precisamos rever esta lógica de cidade para o automóvel e pensar na cidade para as pessoas. Mas isso precisa estar alinhado a um conceito muito mais amplo de cidade. Não adianta restringir o carro, sem ter uma ciclovia ou um transporte coletivo de qualidade. Não adianta tentar incentivar o comércio e a volta ao centro, sem ter segurança, calçadas acessíveis ou sequer uma árvore para fazer uma sombra. E nesse sentido é só olhar ao redor para perceber que a ação promovida pela prefeitura não passa de marketing. Do outro lado da praça, a calçada em frente a Universidade Federal do Paraná, está largada. Atravessar a Praça Santos Andrade é missão apenas aos mais corajosos ou comerciantes de ilícitos. Os ônibus e seus usuários sofrem para conseguir vencer o trânsito infernal da Rua Mariano Torres. A Rua Tibagi não possui sequer uma única árvore plantada, isso na cidade sustentabilidade. Os patinetes de aluguel, restritos aos bairros do Centro, Batel e Centro Cívico, com exceção da Av. Sete de Setembro, da Mariano Torres e das margens do Rio Belém, não encontram uma ciclovia. Como circular com tais patinetes em nossas calçadas? É difícil.
O próprio fechamento da Rua Conselheiro Laurindo, uma rua que praticamente ninguém usava, é uma demonstração da falta de coragem da administração que está disposta a enfrentar a questão desde que não prejudique o trânsito. Ou seja, nada enfrenta.
Mas, ao que tudo indica, com o fechamento da rua tudo será resolvido e Curitiba continuará sendo uma World Smart City Awards.
O marketing sempre venceu em Curitiba. Vencerá outra vez?
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